quinta-feira, 24 de abril de 2008

A cotação do brent

De acordo com o último relatório da britânica BP, Portugal consome 344 mil barris de petróleo por dia, o que significou uma factura diária de 18 milhões de euros em 2007, considerando o valor médio do barril de 'brent' e da moeda única nesse período. Hoje, o país está a pagar 21 milhões de euros pelos mesmos barris de petróleo, ou seja, mais três milhões todos os dias.
Fonte: Artigo citado do Diário Económico .
Nota: Um barril tem 159 litros.

Adenda: Actualização das cotações do Brent: aqui.

terça-feira, 22 de abril de 2008

sábado, 16 de fevereiro de 2008

Citação

Musicians should earn royalty fees for 95 years, up from the current 50-year limit, an EU official said, promising to draft new copyright-protection rules.

Wall Street Journal (Europa), 15 a 17 de Fevereiro de 2008.


Que grande disparate! A não ser que o prolongamento dos direitos de autor aumente a criatividade ou a natalidade... Ou haverá outros benefícios?

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

Uma brisa suave?

Ao consultar a tabela com o comportamento do PSI 20 no princípio deste ano, podemos observar que a Brisa funcionou como um valor de refúgio na tormenta bolsista. A Brisa quase que não perdeu valor, quando o índice PSI 20 teve uma quebra de 14,4%. Como podemos interpretar este desempenho?

Não faço a mais pequena ideia! Esclarecimentos são bem-vindos...

No entanto tranquiliza o comportamento da Brisa. A empresa opera num mercado monopolista - o das auto-estradas - reforçado com a aquisição das Auto-Estradas do Atlântico em 2006. O crescimento das suas receitas é limitado pelo aumento das tarifas - que tem igualado a inflação verificada - e pelo comportamento regular da procura. Isto significa que há-de ser relativamente fácil descontar os proveitos futuros (esperados) da empresa, para obter o seu valor de mercado e o das correspondentes acções.

A estabilidade da Brisa transmite alguma credibilidade ao mercado de capitais. O potencial da empresa é razoavelmente balizado e parece que a sua cotação em bolsa não é facilmente inflacionada. Claro que se ela desatar a endividar-se e a adquirir auto-estradas no estrangeiro, deverá surgir muito mais "ruído" em torno da sua cotação.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

Negócios na bolsa?

O Diário Económico de hoje, num artigo de Pedro Latoeiro e Tiago Figueiredo Silva ("As cinco acções para investir durante a crise"), revela preços-alvo médios, calculados a partir de dados disponibilizados por 20 casas de investimento, concluindo que existem boas oportunidades de investimento na Bolsa. O Top 5 para os próximos 12 meses é constituído por:
1º Sonae Indústria, com preço-alvo médio de €11,15 (o que corresponde a uma valorização de 145,1%);
2º BPI, com preço-alvo médio de €5,69 (valorização de 80,1%);
3º Sonaecom, com preço-alvo médio de €4,32 (valorização de 71,8%);
4º Semapa, preço de €13,27 (valorização de 66,2%);
5º Altri, preço de €7 (valorização de 66,2%).

Ao longo do tempo surgirão novidades, favoráveis ou desfavoráveis para estas previsões...

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

Comportamento recente do PSI 20

A bolsa portuguesa teve um desempenho negativo no início de 2008, tal como a maioria das suas congéneres. Nas primeiras 5 semanas do ano o PSI 20 caíu de 13.019,36 (31 de Dezembro de 2007) para 11.138,69 pontos (7 de Fevereiro de 2008), numa quebra de 14,4%. A tabela revela o desempenho das acções que compõem o índice.


quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

Comportamento das bolsas

A crise do subprime ameaça o comportamento da economia real e as bolsas têm reflectido em 2008 a incerteza da evolução económica.

Ontem o jornal Público dava conta da queda verificada no PSI 20 na véspera - 5,83 por cento, o que excede a quebra ocorrida a 11 de Setembro de 2001 (4,46 por cento) e é a maior queda verificada numa sessão da bolsa portuguesa desde 1998. A queda de 2ª feira 21 de Janeiro arrasta o PSI 20 para baixo dos 11.000 pontos (10.823,10), para níveis de Dezembro de 2006.

O artigo referido traz um gráfico com a evolução do PSI 20 de 3 de Janeiro de 2000 até 21 de Janeiro de 2008. O gráfico é uma "bela" curva em U, com 8 anos a significarem simplesmente uma valorização nula: partimos de um índice com o valor aproximado de 10.800 pontos, para acabarmos agora nessa ordem de grandeza. No interim o índice atingiu o valor mínimo de cerca de 5.500 pontos, algures em 2003.

Além do gráfico do PSI 20 o artigo de Anabela Campos e Sérgio Aníbal ("Crash leva bolsas a quebras que rivalizam com o 11 de Setembro") também reproduz gráficos de outras bolsas. Encontramos as curvas em U pela Europa fora (Espanha-IBEX 35, França-CAC 40, Alemanha-DAX, Inglaterra-FTSE, Itália-S&P/MIB, Dow Jones STOXX 50) e também no Japão-Nikkei 225 e Hong Kong. A surpresa encontramos na América do Norte, no Canadá, com o Toronto SE 300 a passar de cerca de 8.000 para 12.000 pontos e no Brasil, com o São Paulo SE Bovespa isento do efeito de curva em U, e a passar de cerca de 10.000 pontos para 50.000. O gráfico do Brasil abre o apetite para saber como se tem comportado o resto do grupo BRIC.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

"Where is the next bubble we can short?"

Na semana passada um artigo do Wall Street Journal dava conta de um verdadeiro vencedor da crise do subprime: John Paulson, um gestor de fundos de hedging que apostou na desgraça do mercado de crédito de alto risco para financiamento da compra de habitação própria. A história é relatada num artigo de Gregory Zuckerman em “House Money: How a trader made billions on subprime downturn”, WSJ, 16 de Janeiro de 2008, vol. XXV, nº 243, pp.14-15.

Como não se podem vender a descoberto casas (“you can’t short houses”), Paulson teve de encontrar técnicas para ganhar com a quebra dos preços das casas, e com o incumprimento dos créditos. E fê-lo com sorte no timing, visto que não apostou demasiado cedo no descalabro do mercado.

Os créditos imobiliários foram “amalgamados” em collateralized debt obligations (CDOs), que foram transaccionadas em fatias com risco desigual em Wall Steet. O risco dos CDOs podia ser coberto com a compra de credit-default swaps. Quanto maior fosse o risco do CDOs, maior era o custo do swap que o cobria. E o aumento do risco de incumprimento fazia aumentar o preço dos swaps.

John Paulson encontrou na venda a descoberto de CDOs e na compra de credit-default swaps os meios para especular. O aumento do risco de incumprimento conduz à perda de valor dos CDOs (vendidos a descoberto) e ao aumento do valor dos swaps (comprados). E no início da bolha os swaps eram baratos.

Em Julho de 2007 surgiu um índice que reflecte o valor de um cabaz de créditos hipotecários de alto risco realizados nos seis meses anteriores. Paulson tomou posições curtas sobre esse índice (ABX), apostando portanto na perda do seu valor. De Julho de 2006 para meados de Janeiro de 2008 esse índice passou de 100 para um pouco menos de 20.

Os fundos geridos por John Paulson (conhecido por J.P., com 51 anos) subiram 15 mil milhões de dólares em 2007, sendo o lucro pessoal do gestor de 3 a 4 mil milhões de dólares. Em 1994 o gestor iniciou o seu próprio fundo de hedging, centrado nos negócios de M&A; com um capital inicial de 5 milhões de dólares, atingiu o valor de 500 milhões de dólares em 2002, combinando rendimentos alcançados e capital fresco dos investidores. Foi em 2005 que Paulson começou a apostar contra o mercado de habitação, tendo perdido inicialmente dinheiro. Mas a resposta ás perdas iniciais baseou-se num aumento da especulação. Em Janeiro de 2006 o gestor compreendeu que os créditos hipotecários agressivos eram correntes na economia.

John Paulson continua a apostar nas tormentas económicas. Ele considera que os preços do imobiliário vão demorar anos para recuperarem e encontra nos cartões de crédito e no crédito automóvel áreas de perturbação financeira. “He tells investors “it’s still not too late” to bet on economic troubles.” Recentemente Paulson contratou Alan Greenspan, antigo presidente da FED, como conselheiro. Alan Greenspan tem sido criticado por ter mantido a taxa de juro baixa por demasiado tempo, alimentando a bolha do imobiliário.

sábado, 22 de dezembro de 2007

Uma diferença eloquente?

Fonte: Alea do INE (link na lista das Fontes).

terça-feira, 18 de dezembro de 2007

Divergência relativa?

O Eurostat revelou dados relativos à evolução do PIB per capita na UE. O PIB per capita português em 2006 foi 75% da média da UE a 27 (a comparação é feita em unidades de poder de compra, para corrigir a disparidade de preços entre os diversos países).

A estatística de 2006 iguala exactamente a verificada em 2004. E o que é que verificamos para os restantes países da coesão? A Irlanda, a Espanha e a Grécia reforçam a respectiva percentagem em 4 pontos percentuais. A Irlanda passa de 142% para 146% da média da UE, a Espanha passa de 101% para 105% e a Grécia de 94% para 98%.

O grupo dos países que não alteraram a sua posição de 2004 para 2006 inclui, além de Portugal, a Dinamarca, a Suécia, a Finlândia, a França e Malta.

A República Checa ultrapassou-nos (de 2004 para 2006 passou de 75% da média europeia para 79%). Como a Estónia tem subido à razão de 6 pontos percentuais por ano (de 57% para 69%), em breve ultrapassa-nos...

Em 2007 somos o país mais pobre da zona euro e em 2008, com a entrada de Malta e de Chipre, manteremos essa posição. A zona euro tinha sido idealizada para ser o clube dos ricos europeus e agora, com o alargamento da UE para 27 membros, isso está claramente a acontecer. Em 2006 o PIB per capita da zona Euro é 110% do PIB da UE a 27. A zona euro terá 15 países a partir de Janeiro próximo.

Documento do Eurostat: aqui, ou aqui.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

Leilão de BT

Portanto temos uma emissão de BT de 300 milhões de euros pelo IGCP, pelo prazo redondo de 1 ano, à taxa de juro (média ponderada) de 3,981%. Para conseguir colocar os 400 milhões de euros previstos, o IGCP teria de ter aberto um bocadinho mais os cordões à bolsa para oferecer uma remuneração mais elevada. Ao ler a notícia ficam algumas curiosidades por esclarecer: (1) qual foi a "tranche" colocada à taxa de juro mais baixa? Qual foi o valor dessa taxa de juro mais baixa? Mesma pergunta para a "tranche" mais dispendiosa. Quem subscreveu estes BT? Bancos nacionais ou bancos estrangeiros? Aposto que foram bancos estrangeiros. Algumas das respostas a estas perguntas encontram-se no site do IGCP: www.igcp.pt.
Perguntinha: Admitindo o prazo de um ano, qual é o juro que vai ser devido neste empréstimo?

terça-feira, 4 de dezembro de 2007

Dados das empresas...

O Banco de Portugal publicou (...) ontem os dados da sua central de balanços trimestral. Na primeira metade de 2007, as vendas das empresas portuguesas cresceram a um ritmo mais lento (quatro por cento) do que no mesmo período do ano passado (5,2 por cento). Ainda assim, os lucros obtidos subiram mais, principalmente devido ao ritmo mais lento dos custos com o pessoal e dos consumos intermédios.

Em 2006, com base nos dosados recolhidos junto de quase 300 mil empresas a partir da Informação Empresarial Simplificada, é possível saber que os lucros das empresas cresceram 5,2 por cento face ao ano anterior, ao passo que os custos com pessoal aumentaram 4, por cento.

Sérgio Aníbal, " Crise financeira fez disparar juros dos créditos em Portugal", Jornal Público, 23 de Novembro de 2007 (edição nº 6447), p. 45.

sábado, 27 de outubro de 2007

Problemas no "franchising"...

Pagamentos com prazos curtos, "royalties" elevados e margens negativas
asfixiam a gestão das franquias da BP


Os franchisados de postos da BP localizados nas zonas da Grande Lisboa e do Grande Porto e no Norte do país queixam-se ao Expresso das regras "asfixiantes" impostas nos contratos com a BP, que lhes inviabilizam lucros. No entanto, o porta-voz da BP refere que a empresa desconhece estes casos e que nenhum dos franchisados está em situação de falência.

Mas os franchisados confirmam as dificuldades: "Paguei 70 mil euros para aceder ao franchising de um posto de abastecimento da BP, porque me deramm perspectivas de um plano de negócio com um resultado de 360 mil euros ao fim de seis anos, mas, em vez de ter lucros, estou a chegar ao fim do prazo de exploração [de 7 anos] com um prejuízo acumulado de 120 mil euros", denuncia um franchisado da zona da Grande Lisboa. "Como não aceito isto, se nada for feito, levo a questão para tribunal", diz.

Com pequenas variações, este exemplo repete-se em vários franchisados, sendo mais grave no Norte, onde há casos em que os prejuízos se aproximam dos 200 mil euros. Umas das causas deste problema tem a ver com as elevadas margens cobradas pela BP na transacção de alguns produtos, cujo preço de venda ao público não cobre o valor pago pelo franchisado ao respectivo fornecedor.

A compra de tabaco, onde os franchisados têm margens muito negativas, é uma das situações mais gritantes.

De resto, este é problema não é recente. Ocorre há, pelo menos, cinco anos, altura em que o primeiro franchisado, de um posto de Carcavelos, teve de sair por incompatibilidade do negócio.

Mesmo assim a fonte oficial da BP considera que nos 27 postos franchisados pela companhia - sobre os quais só ainda não dispõe de informações completas em relação a dois - "não há qualquer problemas na gestão dos postos", sublinhando que não se conhece "um único caso onde tenham sido identificados prejuízos com dívidas que correspondam a situações de falência". E adianta que a BP acompanha estes postos, em diáloogo permanente com os franchisados.

J. F. Palma-Ferreira, "Franchisados em ruína queixam-se da BP", Semanário Expresso, 20 de Outubro de 2007, Suplemento de Economia, p.11.

sábado, 13 de outubro de 2007

Crescimento com equilíbrio orçamental?

Faz este ano 50 anos que o economista Manuel Jacinto Nunes defendeu a tese de doutoramento segundo a qual o crescimento económico é possível mesmo com equilíbrio orçamental, uma revolução à altura, quando os conceitos dominantes, de John Maynard Keynes, eram de que a despesa pública era o principal dinamizador das economias.

Fernanda Pargana, "Manuel Jacinto Nunes: O economista filósofo", Semanário Expresso, Suplemento de Economia, 5 de Outubro de 2007, pp.20-21.

Jacinto Nunes foi Ministro das Finanças, Governador do Banco de Portugal e Presidente da Caixa Geral de Depósitos. Com 81 anos Jacinto Nunes é um dos economistas decanos portugueses. José da Silva Lopes e Teodora Cardoso (que são mais jovens!) também são reputados economistas.

sábado, 22 de setembro de 2007

A evolução do emprego em Portugal (II)

Onde estão os 150 mil novos postos de trabalho até 2009? Teixeira dos Santos coloca o eventual cumprimento desta meta – que começou por ser uma promessa eleitoral de José Sócrates – nas mãos do crescimento.

Perante a pergunta da jornalista da RTP Judite de Sousa, Teixeira dos Santos começou por sublinhar a elevada taxa de desemprego (actualmente nos 8,2% da população activa) resulta, não de uma destruição de emprego, mas da incapacidade de conseguir criar empregos suficientes para absorver toda a população activa actual.

"Se no passado, grande parte do desemprego resultava de perda de emprego, agora criamos empregos", argumentou. Em segundo lugar, referiu que é preciso que as pessoas melhorem as suas qualificações, aumentando a sua empregabilidade, numa alusão ao programa Novas oportunidades.

Por fim, sem reafirmar a promessa de criação de 150 mil postos de trabalho até 2009, disse esperar que esse fosse o resultado crescimento económico. Por isso, "a meta dos 150 mil empregos não pode ser afastada", concluiu.


Jornal de Negócios on-line, 20 de Setembro de 2007, artigo não assinado e baseado na entrevista do Ministro das Finanças Teixeira dos Santos a Judite de Sousa na RTP, realizada na véspera.

quarta-feira, 11 de julho de 2007

O Euro vai destronar o dólar?

Os Estados Unidos devem em grande parte a sua predominância no mundo da finança internacional ao estatuto do dólar como moeda de referência. Os compromissos da América em prol da economia liberal, do Estado de Direito e da estabilidade monetária conferem credibilidade ao dólar como reserva de valor. Mas os hábitos de consumo dos americanos têm minado a reputação do dólar, ao mesmo tempo que o excesso de oferta de dólares nos mercados mundiais tem diminuído o seu valor. O euro atingiu esta primavera [em Abril de 2007] uma cotação recorde em relação ao dólar, e os bancos centrais aumentaram a proporção da moeda europeia nas suas reservas em divisas internacionais. O dólar estará no ponto de perder o seu título de rei da finança mundial em proveito do euro?

Os precedentes históricos sugerem que não é o caso, apesar da vulnerabilidade actual do dólar.

A supremacia da moeda americana no século XXI aparenta-se à situação do Reino Unido na finança mundial há um século. Antes do início da Primeira Guerra Mundial em Agosto de 1914, a libra esterlina era a moeda correntemente utilizada para as transacções internacionais, como o dólar é-o hoje, e os investidores do mundo inteiro visitavam a City de Londres para obter capitais.

O economista britânico John Maynard Keynes temia que as nações cessassem de utilizar a libra para pagar as suas transacções internacionais se a divisa inglesa não fosse vista como uma reserva de valor segura. “O futuro da City”, de acordo com Keynes, dependia da capacidade da libra esterlina continuar a servir o mundo dos negócios como equivalente ao ouro. O Reino Unido manteve a convertibilidade da sua moeda em ouro até ao início do conflito mundial para preservar a sua credibilidade como meio de pagamento internacional.

O dólar não podia pôr em causa o papel da libra esterlina como moeda internacional sem igualar o seu prestígio. Agosto de 1914 forneceu a ocasião. A mais importante perda de ouro numa geração pôs em perigo a capacidade dos Estados Unidos de honrar as suas dívidas com o exterior. O temor que os Estados Unidos abandonassem o padrão-ouro provocou um desmoronamento do dólar nos mercados mundiais.

Mas o Secretário do Tesouro, William G. McAdoo, salvou a honra financeira da América em Agosto de 1914 continuando a ser fiel ao padrão-ouro, apesar de todos os países, com excepção do Reino Unido, terem abandonado as suas obrigações de convertibilidade. Apesar da credibilidade instantânea concedida ao dólar, foi necessário mais de uma década para a divisa americana se equiparar à libra esterlina como um meio de pagamento internacional. Os hábitos de pagamento alteram-se à mesma velocidade que funde um glaciar.

A transformação do Reino Unido, de credor internacional em devedor internacional durante a Grande Guerra, deu ao dólar um segundo fôlego na sua competição com a libra. Em Abril de 1919 os Britânicos foram forçados a abandonar a convertibilidade em ouro - uma retirada táctica que tinha por objectivo preparar o regresso à antiga paridade de 4.8665 dólares por libra. Seis anos mais tarde, em Abril de 1925, o Reino Unido confirmava a sua credibilidade monetária, regressando ao padrão-ouro. Mas a libra esterlina já tinha sofrido prejuízos irreparáveis.

O exemplo de 1914 mostra que uma alternativa credível pode substituir uma moeda internacional entrincheirada, sobretudo depois dela ter sido enfraquecida por uma balança comercial deficitária. Mas mesmo neste caso, destronar a moeda soberana das trocas internacionais toma tempo.

Hoje, o euro - uma divisa que não depende de um só país - não tem um historial de credibilidade. Treze países da União Europeia utilizam o euro. Mas o compromisso destas entidades políticas independentes para com o euro não é comparável ao compromisso dos Estados Unidos para com o dólar.

O Banco Central Europeu, estabelecido em 1998, tem um mandato para gerir o euro de maneira a manter a estabilidade dos preços. Mas o BCE necessita de tempo para obter as suas credenciais relativamente à luta contra a inflação. Não pode aproveitar a boleia do ouro, como os Estados Unidos fizeram há um século. A moeda única europeia deve assim construir a sua reputação, vencendo as crises que surjam, para pôr em causa a predominância do dólar como instrumento de predilecção nas transacções internacionais.

O desempenho recente do euro como moeda de reserva oficial é instrutivo. Entre 2000 e 2005, o dólar perdeu mais de 25 por cento do seu valor face ao euro. No mesmo período, a fracção das reservas internacionais detidas em euros passou de 18 para 24 por cento, e a parte do dólar caiu de 71 para 66 por cento. Embora a moeda europeia tenha progredido manifestamente durante este período de défices da balança de pagamentos americana, esta evolução constitui mais um declínio da posição do dólar do que uma mudança revolucionária de regime.

O que é o que poderia provocar uma tendência fatal ao dólar nos mercados mundiais? Embora uma venda maciça e inesperada de dólares por detentores estrangeiros importantes - como a China, por exemplo - pareça improvável, um acontecimento devastador, análogo à Grande Guerra de 1914, poderia levar a procurar um novo instrumento monetário internacional. Nesta época de pagamentos automatizados, uma perturbação poderia ser provocada por um ataque terrorista que destruísse as capacidades de transferências informatizadas do sistema bancário mundial. A perda catastrófica dos dados informáticos poderia certamente arruinar a credibilidade do dólar como o meio de pagamento internacional.

A pergunta põe-se, no entanto, de qual seria a divisa que substituiria o dólar naquelas circunstâncias. Com efeito, o desaparecimento dos dados informáticos seria igualmente prejudicial ao euro. Talvez o ouro, uma reserva de valor insensível aos riscos físicos, poderia fazer o seu grande regresso. Obviamente, podemos apenas esperar que este cenário permaneça uma pura conjectura.


William L. Silber, "Will the Euro Dethrone the dollar?", Project Syndicate, Julho de 2007 (disponível em http://www.project-syndicate.org/ ).

terça-feira, 3 de julho de 2007

Quem manda no Euro?

Para construir aviões na Europa é necessário depreciar o euro, explicou Nicolas Sarkozy, sábado dia 23 de Junho, na feira Bourget: “Peço para fazer com o euro o que fazem os americanos com o dólar, os chineses com o yuan, os japoneses com o iene, os ingleses com a libra.” O presidente francês, aliás, estará presente no próximo ECOFIN, o Conselho de Ministros das finanças da União Europeia (UE), a 10 de Julho. Entre os assuntos que conta abordar: “Não se pode ser a única zona do mundo onde a moeda não é posta ao serviço do crescimento.”

Sarkozy poderá impor aos outros membros da zona euro, maioritariamente preocupados com a ortodoxia monetária, uma estratégia de depreciação do euro? Alguns, como a Alemanha, adaptam-se melhor ao seu valor, através de um acréscimo de competitividade. “As ideias de Nicolas Sarkozy sobre o euro são interessantes, mas para utilizar o euro como ele deseja é necessário realizar em primeiro lugar a Europa fiscal e política…”, nota Sylvain Broyer, economista em Natixis.

No entanto os ministros das finanças europeus tentaram, nos últimos anos, ter mais voz nesta matéria, face ao presidente do Banco Central Europeu (BCE), Jean-Claude Trichet, que afirma regularmente: “Sr. Euro, sou eu.“ A ambiguidade é que, nos termos do artigo 111.2 do Tratado de Amesterdão, “as orientações gerais de câmbio” incumbem ao ECOFIN - no qual os ministros das finanças da zona euro formaram um Eurogrupo -, mas não somente: o BCE deve primeiro emitir uma recomendação ou deve ser consultado com base numa recomendação da Comissão Europeia.

Para que o poder político ganhe mais peso, “teria sido melhor criar um ministro dos assuntos económicos da UE em vez de um ministro dos negócios estrangeiros (no tratado simplificado adoptado a 23 de Junho), pelo menos para gerir os dossiers das políticas comuns dos quais faz parte evidentemente o câmbio”, considera Jean-Pierre Patat, conselheiro do Centro de estudos prospectivos e de informações internacionais (Cepii) e antigo Director-Geral do Banco de França, responsável dos estudos e das relações internacionais.

Mas as "orientações de câmbio” estão, de qualquer modo, muito enquadradas: não devem afectar “a manutenção da estabilidade dos preços”, diz o artigo 111.2, [e] uma depreciação monetária aumenta os preços das importações. Impor um objectivo de câmbio preciso poderia ameaçar a independência do BCE sobre as taxas de juro. Ora “Sarkozy disse que não pedia uma mudança de mandato do BCE e que não queria tocar na (sua) independência", recordou Trichet quinta-feira dia 7 de Junho.

No sistema de câmbios flutuantes que governa as grandes moedas – excepto o yuan – os bancos centrais coordenam-se apenas para corrigir as situações extremas, julgadas aberrantes, por intervenções excepcionais e concertadas no mercado cambial: em Setembro de 2000, o BCE e a Reserva Federal americana compraram assim euros e venderam dólares, para arrebitar a moeda única, caída a 0,89 dólares.

No entanto o Banco do Japão escolheu outra via, enfraquecendo a sua divisa por intervenções unilaterais e repetidas no mercado cambial, com taxas de juro muito baixas e com um discurso desencorajando o uso do iene como moeda de reserva. Mas o Arquipélago Japonês foi confrontado com o caso particular de um longo período de deflação. “A zona euro não tem interesse em desencorajar a continuação de um uso crescente do euro como moeda de reserva, que é natural. O peso do euro é a única razão que conduziria os Estados Unidos a ter uma política mais cooperativa a seu respeito: o mercado obrigacionista europeu, mesmo fragmentado, é o único a disputar os mesmos recursos que o dos Estados Unidos ", considera Patat. Será difícil, para Sarkozy, afrouxar o torno.


Adrien de Tricornot, "Euro: le rêve d'une dépréciation compétitive", jornal Le Monde, 3 de Julho de 2007, p. II do suplemento de economia.

sexta-feira, 15 de junho de 2007

As causas da inflação

Meados de 1982 [em França]: a inflação, que reduz a competitividade do país e acentua o défice comercial, tornou-se o problema mais grave. Para a conter, confrontam-se duas escolas. De um lado os defensores da inflação pela procura: para eles, a alta dos preços traduz uma procura excessiva que é preciso reduzir, limitando a quantidade de moeda em circulação. Do outro, os defensores da inflação pelos custos. Segundo eles, a inflação é devida à repercussão nos preços [dos bens e serviços] dos aumentos mal geridos dos salários. Os primeiros defendem o recurso a uma política monetária restritiva, isto é, a um aumento severo das taxas de juro. Para os segundos, uma tal política é contra-indicada, pois ela comprime a procura de uma forma brutal e indiferenciada. Se ela reduz as importações e favorece o regresso ao equilíbrio externo, ela também reduz o mercado das empresas nacionais e aumenta, portanto, o desemprego. Nestas condições, a política indicada para lutar contra a inflação é a política de rendimentos, isto é, a evolução negociada dos salários. Em Julho de 1982 o governo impõe um modelo de política de rendimentos, através de uma lei bloqueando preços e salários. Mas em Março de 1983 o endurecimento do rigor muda o jogo: é a política monetária que se impõe. Por que razão se abandonou tão cedo a política de rendimentos? Por engano, sustenta nas vésperas da sua morte (em 1983), Sidney Weintraub, teórico da inflação pelos custos.

Sidney Weintraub nasce em Nova Iorque em 1914. O seu percurso é clássico: London School of Economics em Londres, Columbia University em Nova Iorque, doutorado em 1941 e, a partir de 1952, professor na Universidade da Pensilvânia. Discipulo convicto de Keynes, opõe-se a
[Paul] Samuelson. Ele acusa-o de deformar o keynesianismo, em particular pela adopção da curva de Phillips, ou seja, da ideia de uma relação inversa entre a taxa de desemprego e a taxa de inflação. Mas o seu alvo privilegiado é o monetarismo. Para Weintraub, é um engano fazer da inflação um fenómeno principal ou exclusivamente monetário, pois ela é a consequência dos confrontos entre os grupos sociais à volta da repartição do rendimento nacional.

Weintraub substitui a equação quantitativa da moeda, que liga os aumentos dos preços aos empolamentos da massa monetária, por uma equação associando os preços e os salários (ou seja p = k w /A, onde p representa os preços, w os salários, A a produtividade e k é uma constante própria de cada país). Portanto, evita-se a inflação negociando com os sindicatos uma evolução das remunerações de acordo com a da produtividade. Quanto aos sucessos atribuidos à política monetária, eles resultam de um mecanismo malsão: uma restrição monetária provoca falências de empresas e desemprego, o que amolece a determinação reivindicativa dos trabalhadores. No seu livro
Capitalism's Inflation and Unemployment Crisis, saído em 1978 (na editora Addison-Wesley), Weintraub dá um modelo da política alemã dos anos 1970, isto é, uma política de rendimentos activa corroborada por um banco central independente. Para Weintraub, a independência do banco central é útil, pois ela incita os parceiros sociais a entenderem-se. Eles sabem, com efeito, que os falhanços da política de rendimentos serão sancionados por uma política monetária restritiva e portanto por desemprego. De um carácter difícil, que o faz qualificar por Samuelson de "lobo keynesiano solitário", mostrando-se muito condescendente relativamente aos monetaristas, Weintraub provoca muitos inimigos, ao ponto de não obter o prémio Nobel da economia, que lhe pareceria naturalmente devido.

Jean-Marc Daniel (professor na European School of Management), "Weintraub et la politique des revenus", jornal Le Monde, 13 de Junho de 2007, p. IV do suplemento de economia.

Notas explicativas:
A equação quantitativa da moeda referida no texto tem a seguinte expressão: M V = P T, onde M representa a moeda, P os preços, V a velocidade de circulação da moeda e T as transacções. Segundo os defensores da teoria quantitativa da moeda, os aumentos da moeda em circulação geram aumentos dos preços. Com efeito, os aumentos de M, com V constante, implicam aumentos de P T, para continuar a verificar-se a igualdade M V = P T. Ora se as transacções não se alterarem (ou pouco se alterarem), aumentos de M traduzem-se por aumentos dos preços - quando aumenta a moeda em circulação os preços dos bens e serviços aumentam, ou seja, ocorre inflação. Segundo estes economistas a inflação é apenas um problema monetário. Milton Friedman (1912-2006), prémio Nobel da Economia em 1976, foi um conhecido defensor desta teoria.

Perguntinhas:
a) Explique as duas teorias explicativas da inflação referidas no artigo.
b) Qual foi a resposta que as autoridades económicas francesas deram ao problema da inflação no princípio dos anos 1980?
c) Qual é a abordagem defendida pelo economista Sidney Weintraub?
d) No artigo é dada uma interpretação do sucesso da política monetária (conduzida por um banco central independente do poder político). Enuncie essa interpretação.