segunda-feira, 16 de junho de 2008

A lição de economia política de Silva Lopes

José Silva Lopes, ex-Governador do Banco de Portugal e ex-Ministro das Finanças, dá uma lição de Economia Política no Jornal de Negócios de hoje. Num artigo longo de 4 páginas, Silva Lopes analisa os efeitos negativos do 3º choque petrolífero da economia portuguesa. Em síntese temos os seguintes aspectos:
- Expoliação da riqueza nacional. Se o governo acertar na actual previsão de 115,5 dólares/barril para 2008, esta cotação média está 24% acima do preço médio de 2007 e isso pode significar 1200 milhões de euros adicionais com a factura energética. Aquela quantia corresponde a uma perda pura da economia nacional, a favor dos nosso fornecedores externos de energia. É desvantajoso baixar o ISP porque isso embarateceria artificialmente os combustíveis, aumentando o seu consumo. É preciso moderar o consumo energético.
- Enfraquecimento da economia. O crescimento económico retrai-se, a evolução mais simpática dos salários reais paga-se no desemprego mais pesado.
- Aumento das contendas sociais. O episódio das lutas dos camionistas ilustra a tentativa de passar a "batata quente" das perdas para terceiros (depois dos camionistas podem seguir-se os agricultores, os pescadores, os taxistas e outros "prejudicados"). O Governo deve evitar ceder, visto que 1) ou agrava o problema ou 2) é injusto nas transferências sociais das dificuldades. Não é de enjeitar subsidiar passes sociais ou o consumo de electricidade das famílias mais pobres.
- Bye-bye política económica. O escudo já não existe quase há 10 anos e portanto não podemos desvalorizar a moeda nacional. A política monetária é decidida por Frankfurt e portanto não podemos baixar as taxas de juro. Não existe espaço de manobra nas contas públicas para expansionismos. Silva Lopes escreve "Muitos dos políticos que temos consideram natural que o Estado continue a endividar-se indefinidamente a ritmo acelerado, como sempre tem sucedido desde o 25 de Abril, e em particular durante os governos dos últimos 15 anos anteriores à data de posse do actual" (p.11; sublinhado pessoal). Descodificação: o "monstro" tem a sua paternidade em Aníbal Cavaco Silva; a desinflação dos anos 90 foi conseguida pela apreciação real (e por vezes mesmo nominal) do escudo, com o OE a "almofadar" as dificuldades.
- Mini pacote de wishful thinking. Era bom que o endividamento da economia portuguesa continuasse a um ritmo mais moderado e que os salários de topo não fossem tão elevados porque a desigualdade ricos-pobres é cada mais vergonhosa.

Nada das 3 páginas de texto inspira óptimismo. O défice externo e o endividamento crescente da economia portuguesa não pode conhecer um hard landing qualquer? Silva Lopes observa: "Temos certamente de continuar a endividar-nos no exterior. Não sabemos todavia qual é a margem que ainda nos resta. Antes de ela se esgotar, aparecerão substanciais aumentos de "spreads" nas taxas de juro exigidas pelos financiadores externos. Em qualquer caso, seria altamente imprudente que viéssemos a gastar essa margem a ritmos mais acelerados do que no passado recente" (p. 9; sublinhados pessoais). Esta passagem é lúgubre: Daqui a algum tempo (1 ano? 3 anos? 10 anos?) acaba-se o crédito e, como vivemos à base de crédito alheio, vai ser o sarilho total? Não conhecemos a data do Armagedon, mas iremos ter alguns sinais: o aumento dos "spreads", ou seja, o encarecimento do crédito que ainda vamos conseguindo, relativamente ao preço do dinheiro noutras paragens da Zona Euro... Silva Lopes aconselha a não abusarmos no "consumo do azeite": ao menos que não aceleremos o acesso ao crédito.

Numa entrevista Silva Lopes analisava 2 empurrões recentes da economia portuguesa: o afluxo de IDE a seguir à adesão à CEE (Portugal estava na moda, não era?) e a quebra das taxas de juro, com o correspondente boom de endividamento e do consumo público e privado. E o economista observava que não vislumbrava nenhum empurrão para o futuro próximo. No artigo de hoje, subentende-se que o autor continua a não vislumbrar nenhuma luz ao fundo do túnel.

8 comentários:

Helena Garrido disse...

Caro Fábio,
Aqui vai o link com a entrevista a Silva Lopes no DE em 2007
http://diarioeconomico.sapo.pt/edicion/diarioeconomico/edicion_impresa/destaque/pt/desarrollo/1026491.html

Fábio disse...

Cara Helena,

Obrigado pelo seu link. Cumprimentos.

leonidas disse...

Excelente blog
Muito boa a informação prestada,

Mas é pena ver tanta gente sem ideias...creio que o problema nacional é mesmo a falta de ideias

Os nossos economistas passaram tanto tempo a seguir modelos de desenvolvimento baseados na desvalorização da moeda (quando não havia crédito) e a recorrer ao crédito para via procura interna despoletar o crescimento que agora não têm mais ideias

Problemas, problemas têm os norte-americanos com a divida externa (agradeçam ao Alan Greenspan)e quem anda a investir o dinheiro em especulação (mais dia menos dia vão-se descobrir na pobreza)

Ou muito me engano ou estamos prestes a assistir a um ressurgimento do proteccionismo na Europa


bem haja

Fernanda Valente disse...

Estimado Fábio:

Já há algum tempo que não vinha aqui e fiquei agradavelmente surpreendida...
Silva Lopes é um economista de primeira linha e quase sempre tem razão nas suas análises. Eu só não concordo é com a não execução das grandes obras de infra-estruturas; a quebra desse investimento afastar-nos-à ainda mais da UE, vindo a beneficiar ainda mais os nossos vizinhos.

Cumpts.

Fernanda Valente

Fernanda Valente disse...

... deduzindo eu que ele seja contra, obviamente, como a maior parte dos economistas de perfil conservador.
(Faltou a conclusão)

Fernanda Valente

Fábio disse...

Cara Fernanda Valente,
Obrigado pelo seu comentário. Realmente as grandes obras são controversas. Acrescentam competitividade? Permitem aumentar as exportações? Ajudam a diminuir as importações?

Fábio disse...

Cara Fernanda Valente,
Obrigado pelo seu comentário. Realmente as grandes obras são controversas. Acrescentam competitividade? Permitem aumentar as exportações? Ajudam a diminuir as importações?

Fernanda Valente disse...

Caro Fábio,

Considero essa uma forma redutora de ver o problema. As grandes obras de infra-estruturas são necessárias ao desenvolvimento de um país, quanto mais não seja, do ponto de vista equidade, por comparação com os restantes estados-membros. Em termos "desenvolvimentistas", a Europa não pode acabar em Espanha, mas sim em Portugal.
Coloca a questão do efeito prático desses investimentos. A nossa situação geográfica é previlegiada, na medida em que pode funcionar como porta de entrada para o investimento estrangeiro, a partir de países que se encontram do outro lado do oceano. Mas, para isso não bastarão as obras, naturalmente.

Afinal e depois de ler a entrevista completa de Silva Lopes, verifico que ele tem mais ou menos a mesma opinião...